"Porquéques" / "Why?"

Memórias de menino

De miúdo, no percurso da escola - porque nesses tempos podíamos andar quase sem restrições - passava diariamente por um Sapateiro e por um Latoeiro. O tempo é um património e nessa altura era quase só meu: havia muito tempo livre e não tinha, como hoje acontece, a tenra agenda muito preenchida. A ajudar havia uma razoável tolerância se chegasse a casa atrasado. 

E então ficava fascinado. De uma folha de lata nascia uma bilha de leite, irmãzinha mais nova da que todos os dias nos batia à porta e que atendíamos de fervedor em punho. E da mesma folha no dia seguinte assistia ao glorioso nascimento de um “lato” de quem já conhecia o irmão mais velho, na aldeia, pendurado numa corrente que numa ponta tinha um gancho e a outra desaparecia misteriosamente nas profundezas negrentas da chaminé. Nesse “lato” via aquecer uma infusão, de cheiro indescritível, com folhas de negrilho e farelo para dar aos animais. E da mesma folha, com as sobras, ainda dava para fazer um candeio e parte do jogo de medidores de leite.

O Sr. José Latoeiro atendia, com a disponibilidade que a tenacidade do trabalho permitia, com muita paciência, aquele não cliente possuidor de um manancial inesgotável de desajeitadas perguntas técnicas. Não havia maneira de entender os mistérios da planificação e à afirmação “então aquele lado é onde fica a pega de baixo” respondia “ não menino aí é a solda do meio”, numa entoação plana sem levantar a cabeça como se não fosse a trigésima vez que me enganava. A bem da conversa disfarçava com um “tá isto frio” mudando o rumo para assunto mais consensual e pacífico, em que as falhas de um miúdo de 9 anos fossem menos clamorosas.

O Sr. Manuel Sapateiro era diferente, o trabalho envolvia menos tenacidade, dava-me mais conversa, a paciência era maior. E a nossa relação assentava num equívoco: reparava sapatos que não tinham sido feitos por ele e ao dizer inúmeras vezes que estavam malfeitos, que não eram feitos à moda antiga, eu achava de uma tremenda injustiça ter ele, coitado que reparar erros de terceiros… quando aí residia a sua subsistência. Mas comecei a perceber “porquéque” o couro da sola de um sapato masculino tinha o dobro da espessura de um feminino. E já sabia qual dos dois ia cortar consoante a faca que começasse a afiar vigorosamente em movimentos rápidos, sonoros e precisos.

O afiar! Fascinava-me não tanto pelo processo – a fricção num bocado de madeira plana forrada a duas lixas de grão diferente – mas pelo resultado. Convertia uma velha lâmina desdentada de uma serra de aço que ele garantia ter vindo da Alemanha, num instrumento de ponta e fio tão resplandecente que até parecia macia.

Lá vinham as perguntas desajeitadas: “porquéque” se dá a lixa grossa primeiro? “Porquéque” o couro grosso corta-se e quebra-se e o fino se corta de uma vez? Da mesma forma que o Latoeiro, em voz átona, lá respondia. Passei então a reparar que quando ele entendia que eu havia esgotado o meu capital de perguntas subia a entoação em conjunto com o seu interesse e: “olhe lá e que me diz das contas que fez hoje na escola, a palmatória cantou?” E lá tinha que dizer, a custo, porque era pra mim assunto incómodo já que antevia um bom pedaço de tempo até voltar ao que me interessava.

O que queria não era falar do mundo e do tempo, isso sim da satisfação dos meus “porquéques”. Aprendi que era uma troca: eles explicavam-me a Arte e eu era mensageiro infantil do Mundo que gostavam de acompanhar do alto baixinho das suas cadeiras de trabalho. Que cada vez que fazia pergunta tola era para eles acontecimento favorável. Teria que falar da escola, do acidente na rua de Trás, do comboio que tinha passado atrasado, etc. É que as velhas portas que eles fechavam rigorosamente às 19 horas eram afinal duas pequenas janelas sobre os mundos que nos interessavam…

Houve então um ano que por alteração dos horários escolares coincidia a hora da minha passagem por eles em alturas de afobo de freguesia e também o Hergé e a Enid Blyton chamavam por mim. Voltei depois ao horário antigo, mas o encanto perdera-se. Continuava a achar a perícia manual fantástica em conjunto com o conforto que davam a dezenas de pessoas. Até me custou entender. Mas percebi: era sempre a mesma coisa…. 

Experimentava um sentimento misto de gratidão e de culpa porque na altura achava que tinham muito mais valor do que lhes era reconhecido. Lembro até que reagi exagerada e tolamente quando a professora resolveu explicar o dito “não queiras tu sapateiro tocar rabecão”…

E agora …


Portugal teve um enorme capital humano que lhe permitiu chegar aos dias de hoje com um passado e uma História de extraordinária riqueza. 



Os Descobrimentos foram incontestavelmente o período de maior grandeza histórica em que um pequeno povo com pouco mais de 3,5 milhões de habitantes conseguiu dar “novos mundos ao Mundo”. Foi na altura tornado possível esse enorme feito começado com pouco capital financeiro mas em que se conseguiu juntar o país de uma forma progressiva em torno de um enorme projeto comum. 



Não é meu propósito aprofundar os fatores que ajudaram a que tal acontecesse. Penso no entanto ser pacífica a afirmação que se segue: estes feitos implicaram uma enorme capacidade manual que conseguiu dar corpo e forma a tudo que foi necessário para a deslocação física de homens e meios de transporte. 


É essencialmente neste ponto que gostaria de me deter porque a informação que chegou aos nossos dias me parece bastante escassa.

Aos nossos dias a informação detalhada dos métodos e técnicas dos Artífices que deram forma ao Astrolábio e ao Quadrante, à infinita parafernália náutica produzida pelos carpinteiros, ferreiros, oleiros, tanoeiros, cordoeiros, tecelões, calafates etc., etc., chegou parcamente (se compararmos com o resto da documentação). Um indício curioso que ajuda a explicar também esse facto surgiu-me quando procurava técnicas de união na carpintaria medieval: as receitas de cola eram passadas de pais para filhos, secretamente, por via testamentária… (já agora: um estudo comparativo feito em 1990 na Universidade de Washington de uma receita de cola antiga com trigo e açúcar vs cola branca contemporânea, concluiu necessitarem de igual quantidade de esforço para se descolarem… http://solarcooking.org/portugues/wheatpaste-pt.htm

Aos nossos dias chegaram assim, não compêndios exaustivos de como fazer, mas o Conhecimento assimilado do passado e melhorado pelos próprios Artesãos: a necessidade de sobrevivência aguçou a adaptação das técnicas às precisões desses tempos. Uma palavra também para as ferramentas que ao longo dos anos fui conhecendo. As ainda hoje usadas pelos Artesãos são muitas delas exatamente iguais às utilizadas pelos Artesãos medievais, excetuando o metal, em que o aço veio em alguns casos substituir o ferro. 

O Artesão ao longo da História foi esquecido nas horas de celebrar êxitos. Mas foi ele que soube escolher sobreiro para a quilha das embarcações e não pinho - porque as suas sinuosidades eram aproveitadas para as formas arredondadas das quilhas, as suas “torturas e garfos afeyçoados para as voltas das cavernas e curvas e agulhas para as quaes se acham nos soveryros ramos de tal geyto que servem inteyros sem ajuntamento de pedaços o que faz muito jeyto para a fortaleza do navio” (LAVANHA, João Baptista. Livro Primeiro da Architectura Naval. Lisboa: Academia de Marinha, 1996). 

Que escolheu pinho manso para o exterior das embarcações, muito mais resistente que outras árvores ao ataque do busano (canilha).

Que escolheu os pregos das minas Bascas (curiosamente na mesma época outros povos náuticos usavam pregos de madeira mais dura e nós já os usávamos em metal) e o cânhamo da Bretanha, este porque calafetava melhor e fazia enxárcias mais duradouras, os outros por serem mais baratos, durarem mais e conferirem maior rigidez à embarcação. 

Que aprendeu a aplicar o fogo e a água (misturada com secretos produtos) à madeira para a fazer arquear e formar pipas, corrimãos, anteparas, etc. 

Que soube misturar outros materiais ao barro e conseguir um resultado mais leve, sem poros e impermeável. 

Que sabia que das árvores cortadas no Inverno nasciam tábuas que não empenavam ao contrário das cortadas noutras estações do ano (juntamente com anos de secagem). 

Que se molhasse a corda que aperta uma colagem conseguia um aperto extra que melhorava a união. 

Que se começasse a embarcação pela quilha conseguia uma nau muito mais sólida que as começadas pelas costelas e exterior como se fazia noutros países. 

Claro que podemos pensar que sentido fazem nos dias de hoje tais técnicas. Para que serve o conhecimento de moldar a madeira com fogo & água ou o respeito pelas alturas de corte das árvores e tempos de secagem. Há máquinas e técnicas químicas que fazem isso tudo… 

Mas, se as nossas preocupações ecológicas se sobrepuserem à toxicidade dos químicos atuais utilizados… se as árvores afirmarem a sua importância regeneradora do dióxido de carbono e surgir a necessidade de aumentar a sobrevida das madeiras que utilizamos… Há casas em Inglaterra, em madeira, em ótimo estado, de 1200… 

Não me consta que existam em Portugal, como em Inglaterra, vinte gerações de Artesãos… No nosso país as técnicas passaram de boca em boca, sendo adaptadas e reformuladas, integrando novas matérias-primas em função do que o Artesão se propunha fazer (e eram sempre produtos muito diversificados). Esse processo foi de uma grande importância. Está exatamente na base daquilo que foi e ainda é valorizado por exemplo em países como a França, que repararam bem que os portugueses eram e ainda são verdadeiros canivetes suíços quando colocados diante de um problema. 

Quero simplesmente afirmar que me parece um enorme desperdício deixarmos esquecer o Conhecimento Técnico de um povo, guardado nos seus Artesãos. Que por vezes têm soluções simples para situações que a sociedade de consumo insiste em sofisticar… A curiosa história dos enormes custos de desenvolvimento de uma esferográfica que escrevesse bem na ausência de gravidade pela Nasa versus a utilização de um lápis pelos russos…

E o que está a acontecer com os nossos Artesãos?

São provavelmente a 1ª profissão do Mundo… nascida da necessidade do melhoramento da interação do homem com o meio numa busca contínua do equilíbrio entre as suas capacidades e a funcionalidade dos seus produtos.

Mas em dado momento o objetivo do Artesão deixou de ser a procura da funcionalidade: o advento do plástico, a produção em série, bem como a eficácia dos especialistas da Ergonomia, do Design, etc., retiraram ao Artesão a procura do Mercado, seja pela diferença do custo e/ou estética mas ainda mais pela perda comparativa dessa funcionalidade.

Progressivamente diminuídos pois, os seus produtos, da sua vertente funcional, teve o Artesão que tentar adaptar-se à nova perspetiva com que o Mercado o passou a encarar. Percebeu que a sua clientela tinha dois tipos: os que procuravam o rústico, o típico e que adquiriam os seus produtos para os utilizar num ambiente aldeão, campestre, e aqueles que os compravam simplesmente por saudosismo (peças que recordavam a infância…), ou que haviam achado graça aos artigos que tinham visto no tal ambiente rústico/campestre, sem lhes atribuir uma serventia que não fosse só a satisfação de uma certa emocionalidade… 

É que os lares de hoje são fundamentalmente práticos… E o espaço tende a ser muito limitado: poucas peças há numa casa que não tenham sidas adquiridas com a articulação da funcionalidade e a estética... (esta afirmação é coincidente com a definição de Design de Beat Schneider (2010)) e as saudosas peças, compradas no tal impulso emocional, ao disputarem o espaço das casas de hoje, convivem dificilmente com outras, contemporâneas ou antigas. Perdem normalmente esse confronto, sendo relegadas progressivamente para os Arrumos e enfim despromovidas definitivamente para uma qualquer venda de Natal…



Falta pois Design às peças dos nossos Artesãos...



No entanto o Artesão detém um Conhecimento de enorme valor. E o domínio das técnicas das Artes Ancestrais não se perdeu ainda. Talvez seja necessário, como eu fiz, assistir ao trabalho de um bom Oleiro, de um bom Ferreiro, de um bom Tanoeiro e tantos outros para entender que conseguem - com a articulação de um bom Designer de Produto ou Arquitecto, dispostos a apreender as possibilidades das Técnicas Ancestrais - produzir um fondue em barro negro, um porta-revistas em ferro forjado, ou um balde com aduelas e corda…que também pode ser um porta revistas…

Mas o que está a acontecer com os nossos Artesãos é que estão a desaparecer…

O que se pode fazer?

A única forma que me lembro de conseguir a sobrevivência do Artesão é viabilizar economicamente a sua atividade. 



Como? Fazendo a ponte entre o seu Conhecimento e os Designers/Criativos que estejam dispostos a conhecer as técnicas que utiliza para que articulada e conjuntamente desenvolvam peças que aliem a estética às funcionalidades contemporâneas. Que tenham Design…



O que resultará se se conseguir integrar a imensa criatividade dos Designers às técnicas de execução dos nossos Artesãos? 

Exportaremos? 

Teremos as nossas casas mais bonitas e funcionais? 

Criaremos postos de trabalho? 

Por isso  estou a trabalhar:

no barro 

na lata 

no cobre 

no corno de boi 

no vime 

no ferro forjado 

na madeira 

Os Jardins Verticais foram um exercício prático para inventariação das dificuldades que se deparam quando se interage com Artesãos no desenvolvimento de um produto novo.

Para saber como poderei incrementar a articulação dos Artesãos com os Designers.

Alexandre Lobo Xavier


15/07/2013